Yorranna Oliveira

Achei a imagem aí de cima pesquisando no Google. E ela define perfeitamente um pouco do que eu sou e da proposta do blog: tem de tudo um pouco, e um pouco de quase tudo o que gosto. Aqui você vai encontrar sempre um papo sobre música, cinema, comunicação, literatura, jornalismo, meio ambiente, tecnologia e qualquer outra coisa capaz de me despertar algo e a vontade de compartilhar com vocês. Entrem e divirtam-se!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Paixão pela arte


Foto: Antônio Cícero

O jeito alinhado de se vestir e a fala mansa, quase metódica de apresentar seus trabalhos, em nada insinuam a veia transgressora do artista plástico Acácio Sobral. Paraense, filho de portugueses, Acácio foi criado para conduzir os negócios da família, o Curtume Sobral Irmãos. Mas a vida de empresário não o impediu de se dedicar intensamente à arte.

"Nunca deixei o artista de lado. A arte sempre esteve presente na minha vida, tanto que usava minhas férias para pintar e experimentar materiais. Os finais de semana deixava de passar com meus filhos para ficar no meu ateliê", conta Sobral.

Durante muito tempo, ele viveu entre a responsabilidade de substituir o tio no mundo dos negócios e a vontade de se entregar somente à produção artística. Desde menino, o artista já demonstrava interesse pelo tema. No entanto, nunca teve apoio da família para desenvolver seu talento. "Na escola, passei a me destacar pelos meus desenhos. As pessoas diziam que eu deveria seguir a carreira. Meu tio, também chamado Acácio, por outro lado não queria. Ele desestimulava, porque o meu destino era sucedê-lo. Pra ele, isso não dava futuro, era coisa de marginal", lembra.

A morte da mãe, quando Acácio Sobral tinha seis anos, aflorou a necessidade de expressão, e serviu como válvula de escape para os sentimentos que lhe atormentavam. "Quando minha mãe morreu, fiquei muito fragilizado. Toda vez que algo me incomodava, ou sofria algum tipo de pressão, eu baixava a cabeça e começava a rabiscar. Isso era um mecanismo de defesa", conclui.

Trabalho
Em 1996, Acácio abandonou o ramo empresarial, onde ganhou prestígio e respeito pela atuação eficiente na empresa da família. Amigos, parentes e colegas de profissão tinham certo receio de que as atividades artísticas atrapalhassem a imagem do administrador bem-sucedido. Contudo, quem olha para o homem de 1,60 m, com o ar sério e de uma personalidade marcada pelo senso de organização, jamais o ligaria ao estereótipo reservado aos artistas, taxados como "marginais", "desleixados" e "vagabundos". "Eu procurei me desvencilhar do perfil equivocado em relação ao artista. Um amigo veio me parabenizar uma vez, porque eu tinha mudado a visão dele a respeito. Sempre tive orgulho de me apresentar como artista e esse elogio só veio agregar valor à profissão", ressalta.

Na sala de sua casa, onde quadros, objetos, imagens e outros objetos de trabalho decoram o ambiente, Sobral mostra cuidadosamente o processo de concepção de cada obra. Aponta um quadro na parede, uma instalação no teto e explica como chegou até ali. Origens, influências, heranças e pesquisas entram no diálogo do artista plástico com a arte.

De família de curtidores, o material usado no curtume como a pele de cobra e jacaré, inspirou a instalação "Despachos". Espalhados pela residência, tiras penduradas em vários cantos do lugar, lembram as cobras da Amazônia, onde o autor homenageia a fauna e o folclore da região. As "cobras", nada mais são do que os tecidos portugueses, herdados das tias. Neles, pecados de couro se unem à técnica da encáustica, ao barro e assim por diante.

O encontro
A produção de Acácio emergiu na década de 1970. Nesse período, apresentou seu primeiro trabalho, na Pré-Bienal de São Paulo. Depois vieram inúmeras exposições, individuais e coletivas. Daí percorreu galerias e museus do Rio de Janeiro, Distrito Federal, Minas Gerais, Pará, Manaus, Amapá, Maranhão, Ceará, Estados Unidos e Alemanha.

No início da carreira, deixou de lado a tinta óleo e o estigma da imitação de outros mestres das belas artes. Nas pesquisas e experimentos tentava distanciar-se da influência recorrente aos grandes nomes como Picasso e outros. "Eu procurava algo autêntico. Queria deixar de lado a tinta óleo. Quando comecei, pegava uma pintura, uma imagem e reproduzia. Mas, aos poucos fui me encontrando. Nessa busca, na qual usei meu autodidatismo, e um dia usei uma vasilha de margarina com aguarrás para limpar a tinta dos pincéis. Aí, percebi a dilatação da vasilha. Foi daí que nasceu, mesmo, o artista. Passei a derreter o plástico, a experimentar a resina plástica. Derretia copos de liquidificador e plastificava panos. A resina manifestou minha primeira forma de expressão realmente autêntica", afirma Sobral.

Matéria-prima nas criações de Acácio, a resina plástica acompanhou seu trabalho até meados da década de 90. O amigo Osmar Pinheiro, arquiteto e pintor - já falecido -, idealizador do ateliê de Sobral, lhe apresentou a técnica da encáustica. A técnica virou ponto referencial na obra do artista, junto ao uso das linhas, traço constante cada vez mais presente nos últimos trabalhos de Acácio. Em 2004, conquistou o grande prêmio do XXIII Salão Arte Pará, repetindo o feito de 1995, por uma vídeo instalação sobre o processo artístico e o uso da imagem de um tirador de espinhos.

Na técnica da encáustica, onde cera de abelha, parafina, carnaúba, cascos de árvores e outros elementos são utilizados, Sobral acrescentou a anilina (corante), dando novo aspecto às obras, com a imersão de cor e vida. Detalhes trabalhados sobre as ranhuras concebidas na cera. O resultado é um trabalho conceitual e totalmente diferente das produções mais convencionais.

"Foi a quebra total. O distanciamento de vez das influências dos movimentos artísticos habituais", destaca.

Aliança teórico-prática
Muito da atual linha seguida por Acácio, também se deve a teoria adquirida na prática e na Pós – Graduação em História e Memória da Arte, pela Unama, em 2001. Durante o curso, ele pode aperfeiçoar e se aprofundar nas experimentações com a encáustica.

Sempre no estudo e pesquisa, em 2002, o artista publica o livro "Movimentos Iniciais do Abstracionismo no Pará", pelo Instituto de Artes do Pará.

Atualmente "Fotografias com interferências", inaugura a nova fase do artista plástico. Ao se apropriar de imagens e fotografias de diversos autores e personagens. O momento para subverter a ordem e transgredir as regras mais uma vez. "Tudo o que me chama atenção, me provoca alguma reação, me desperta algum sentimento, eu interfiro através das linhas. Faço traços por cima dessas imagens de revistas, livros, quadros, o que for e me aproprio, criando outra obra. Mas, agora as linhas se tornaram mais livres, ao contrário de antes, quando utilizava o traço mais reto, formal e padronizado. A liberdade criadora transforma a obra em algo com a expressão de minha identidade", acrescenta.

2 comentários:

Rita Cerejo disse...

Eu amava-amo Acácio Sobral, ela era linnnnnnnnnnndo! Calma lá!: ele era um belo artista. Muito Obrigada por este artigo/reportagem sobre ele.
um abracao
Rita Cerejo.

Pérolas da Comunicação disse...

Por nada, Rita. Acácio merece. Foi muito ter conhecido sua arte antes de sua partida.
Yorranna Oliveira