Yorranna Oliveira

Achei a imagem aí de cima pesquisando no Google. E ela define perfeitamente um pouco do que eu sou e da proposta do blog: tem de tudo um pouco, e um pouco de quase tudo o que gosto. Aqui você vai encontrar sempre um papo sobre música, cinema, comunicação, literatura, jornalismo, meio ambiente, tecnologia e qualquer outra coisa capaz de me despertar algo e a vontade de compartilhar com vocês. Entrem e divirtam-se!

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Noturna Belém

O retrato de um casamento em pedaços. Duas vidas divididas pela distância entre corpo e alma. Duas vidas que se unem apenas na pior de todas as solidões: a da presença ausente do outro. Em seu novo conto “A Noite”, o futuro escritor Gleidson Gomes descreve o afastamento de um casal, tendo como cenário a cidade que tanto o impressiona: Belém.

Belém entranha-se no conto. Ela assiste o abismo de uma relação, transformando-se na verdadeira protagonista da estória. “Essa cidade me invade”, diz Gleidson. E essa invasão contamina o leitor, através do ritmo frenético da noite, com seus personagens, figuras, paisagens, sons.

A Noite
À Rafael Maciel

"grito por seu nome sem parar, sem saber onde vou" Marcelo Val

Era insônia, pensou, ou a aparelhagem na sua cabeça fazendo o corpo pulsar no ritmo do tecnobrega. Inquieto, levantou, abriu uma porta, a noite invadindo o quarto inteiro, o frio estuprando o calor do seu corpo. Olhou a nudez das ruas da sacada, as esquinas sonolentas, a cantinela triste da chuva fina no asfalto. Fechou os olhos: ainda havia as ruas, as esquinas, a chuva. Vestiu aquela bermuda cinza, a camiseta azul, tão precárias quanto o sexo que praticava com ela há algum tempo. Observou suas formas avantajadas, o desejo murcho entre as pernas, os cabelos manchando de sangue os lençóis. Não soube ao certo o que sentia, mas sentiu.

No escuro, atravessou o quarto e parou do outro lado de si. Não era ele que estava ali, havia outro, e pensava nela, os olhos grandes, lhe comendo, triturando. De repente sentiu-se frágil, algo se quebrando dentro dele, as mãos desesperadas tentando catar os cacos, sangrando. Chegou ao banheiro sem querer, um sentimento estranho escalando seu peito. Perdido, acendeu a luz, e cego encontrou-se no espelho. Aos poucos viu seu rosto recompondo-se, materializando-se como um fantasma. Percebeu novas linhas sob os olhos, as antigas cada vez mais profundas e escuras: era insônia, teve certeza.

Fumaria um, pensou, como sempre fazia quando não entendia o que se passava com ele, com ela, entre eles. E em seguida, lembrou que aquela semana não tinha comprado, a consciência flutuando como urubus sobre cadáveres de crianças. Estava irritado, a música o chicoteando, sozinho naquele universo amarelo, a escuridão lhe espreitando da cozinha, a lucidez lhe enlouquecendo. Havia um muro de silêncio entre os dois, erguido em conjunto dia após dia, as carnes muito próximas, as almas desconhecidas. Ele sentia. Ela sabia. Chorou sem perceber, as lágrimas em erupção nos olhos, larva escorrendo pelo rosto.

Ainda estavam no primeiro andar de suas vidas juntos, fingida lua de mel, e era amargo o gosto que ele tinha na boca. Quis vomitar, os espasmos distendendo por completo seu corpo, pedaços de carne morta entupindo a pia branca. O vômito misturou-se às lágrimas, a dor no estômago à dor no peito. A cabeça entrou na dança, o psicodélico agora era brega, sorriu, fiapos dela entre os dentes.

Saiu.

A noite era uma puta bêbada cantando sob a chuva um melody antigo com cadência de bolero. Os edifícios eretos, a puta toda sentada sobre eles, milhares de línguas frias espalhadas pelo ar, lambendo o rosto dele, os braços nus. A Almirante gemia mais adiante, toda molhada. Ela não entenderia, pensou alto, tinha sombra de passarinho, como uma pintura de Magritte. Lembrou das poucas palavras cuspidas no café da manhã, dos diálogos dos pratos, o silêncio gritando na cara dos dois.
Estavam vivendo juntos sozinhos um com o outro. Já não lembravam a geografia de seus corpos, o gosto das carnes, o agridoce da buceta, o amargo do cu, o salgado da pica. Caminhava na Almirante, sabia onde estava, achava. E começou a observar a maciez das luzes, os carros correndo, como em câmera lenta, chiando no asfalto, o verde mergulhado na escuridão, roncando. É o baseado, pensou, e em meio a tanta confusão, lembrou. Tudo estava parado, e se movia, com contornos diferentes, as coisas mortas ganhando vida. De repente, se deu conta do quanto andara e se perdera, parado, do qualquer lugar onde chegara. Sabia que era Belém, mas poderia ser Macondo, e queria Tel Aviv. Calmo, desesperou-se. Reconhecia as ruas onde pisava, mas nunca soube como chamá-las, se é que elas tinham nomes. Foi então que entendeu, quis entender, pensou entender, que sempre esteve ali, sempre estaria ali, e nunca mais voltaria para casa, para ela. Olhou a puta, parecia triste e cansada, o charme de sua decadência: as esquinas estavam vazias, ele sentia-se vazio. E por mais que procurasse, por todos os lados, estava sozinho, o corpo pesado de tédio, a alma encharcada de chuva e solidão.

4 comentários:

Benigna Soares disse...

Oi Lindona. Muito forte esta criação, entretanto, muito coerente com o cotidiano de nossas vidas e de nossa Belém....

Carol Peres disse...

Chorei e ri. Primeiramente estranhei, mas logo depois me reconheci. Já sou fã do Gleidson.

Pérolas da Comunicação disse...

Você tem razão Benigna, não é toa que essa cidade inspira tanto.
Abraços,
Yorranna Oliveira

Pérolas da Comunicação disse...

Também sou fã dele Carol e tenho orgulho de acompanhar esse começo do nosso amigo. ei que um dia ainda escreveremos belas críticas sobre ele nas grandes publicações da imprensa,se não formos nós, outros farão!

Abraços,
Yorranna Oliveira