Yorranna Oliveira

Achei a imagem aí de cima pesquisando no Google. E ela define perfeitamente um pouco do que eu sou e da proposta do blog: tem de tudo um pouco, e um pouco de quase tudo o que gosto. Aqui você vai encontrar sempre um papo sobre música, cinema, comunicação, literatura, jornalismo, meio ambiente, tecnologia e qualquer outra coisa capaz de me despertar algo e a vontade de compartilhar com vocês. Entrem e divirtam-se!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Enquanto o emprego não vem, eles trabalham


Por Gleidson Gomes e Yorranna Oliveira
Fotos: Gleidson Gomes

José Monteiro, 32, há nove anos repete o mesmo roteiro de trabalho: um subir e descer constante em ônibus. Ele sai da Cidade Nova, onde mora, desce no Entroncamento, compra R$ 5 ou R$ 10 reais em produtos. Sobe em outro ônibus, começa a vender. Desce no Ver-o-Peso, compra mais produto, vende e segue novamente para o Entroncamento. Lá, pega outra condução e volta pra casa. Nesse troca-troca de paradas, ele descansa, come, bebe alguma coisa e segue sua venda. Nos sacolejos do ônibus, José consegue seu sustento.

No mesmo lugar, Silvia dos Santos, 21, tira os R$ 20 ou R$ 30 reais diários que garantem sua sobrevivência e da filha Bianca Carolina, de 3 anos.

José vende pé-de-moleque, balas de gengibre e ice-kiss. Silvia, bombons de chocolate. Os dois são paraenses. Ele de Bragança. Ela de Belém. Juntos, transformam-se em números das estatísticas de trabalho informal que crescem a cada ano no Pará. Silvia e José representam o universo de seis mil ambulantes circulando em Belém. E integram outros dez mil da Região Metropolitana.

Casado, pai de duas meninas, José trabalha todo dia, às vezes, até aos domingos. Começa entre 10h e 11h e termina às 22h ou 23h. Para o vendedor, ser patrão e empregado de si mesmo, tem suas vantagens. Ele faz o próprio horário e todo final de semana bebe sua cervejinha. “Meu vizinho recebe um salário mínimo, mas quando que ele faz isso. Eu ganho R$ 200, R$ 300 reais por semana, enquanto ele leva quase um mês pra conseguir um pouco mais que isso”, diz.

Mas José sabe: o dia que não trabalhar, ele simplesmente não terá dinheiro. E sem dinheiro não tem comida farta dentro de casa. Se ficar doente, não tem auxílio doença. A mulher é dona de casa, as filhas estudam. José garante sozinho a sobrevivência da família. Por isso, ele sempre guarda um pouco do que ganha para qualquer emergência. “É um trabalho desgastante, mas compensador. Chego em casa, dou o dinheiro pra minha esposa, metade ela compra a despesa e outra metade ela guarda. Ninguém compra fiado em casa. Tudo é pago no dinheiro”.

Silvia vende, desde os 18 anos, os bombons produzidos pela mãe, Sebastiana. Por cada um, paga R$ 0,30 centavos e vende a R$ 0,50. Durante a semana, depois da aula, a jovem coloca 200 bombons numa bacia e saí às 18h de sua casa, no bairro do Benguí, para só voltar às 23h. “Nem sempre vendo tudo, mas dá pra sobreviver. Dou parte do dinheiro para minha mãe, pago minhas contas e sustento minha filha. Nunca consigo guardar nada”, explica.


O pai de Silvia sustenta a família como ajudante de pedreiro. Ela e os dois irmãos menores – também ambulantes – ajudam a complementar a renda. Num sistema de empresa familiar, a mãe e duas primas fazem os bombons, revendidos pelos irmãos.

José quer abrir uma poupança ainda este ano. Quer juntar dinheiro para a festa de 15 anos da filha mais nova, Rayane, 9. Ele não passa um único dia sem vender alguma coisa. “Nunca aconteceu de não vender nada. Tem dia que faço 50, 60, às vezes 20 , 30”. Mas, segundo ele, quando começou vendia bem mais. “Naquela época não tinha tanto vendedor, como tem hoje”.

Eles não sabem, mas, possivelmente, terão novos companheiros no mercado informal, além dos cerca de 400 mil da Região Metropolitana de Belém. Somente nos quatro primeiros meses de 2009, o Pará perdeu 13.802 mil postos de trabalho. E em abril, foram 2.143 postos perdidos no Estado. Isso representa uma queda de 0,39% em relação ao mês de março deste ano, quando cerca de 5.600 trabalhadores demitidos. “Vendo bombom porque emprego está muito difícil. Coloquei currículo em lojas, mas nada. Vou vender até conseguir um emprego”, planeja Silvia.

José passou tanto tempo vendendo que nem sabe o que seria se tivesse outro ofício. Se alguém lhe pergunta a respeito, olha para o infinito e pensa. O olhar se enche de vazio. José mergulha para dentro de si mesmo à procura de uma resposta. Os olhos se tornam úmidos nos segundos em que ele faz essa busca. A resposta tem cinco palavras: “Não sei, infelizmente, não sei”.

Com informações do Dieese.

2 comentários:

Eraldo disse...

O texto de vocês, Yorrana (minha mais nova paixão platônica) e Gleidson (Pessoa pra quem eu daria se fosse gay), me fez viajar de novo de busão, e lembrar o quanto é chato ter a verdade esfregada em nossa cara diariamente. É uma verdade que nem chega a se tornar mentira... ela simplesmente sobe e desce.

Pérolas da Comunicação disse...

Paixão platônica?!(hehe, gostei).

A verdade que se encontra na rua, no olhar, nas histórias das pessoas arrebata mesmo e te faz refletir sobre tua própria existência e sua função como ser humano, como repórter.

Entendo o que queres dizer, me sinto assim toda vez que leio um texto da Eliane Brum ou do nosso professor, Ismael Machado.

Beijocas.
Visite sempre.