Yorranna Oliveira

Achei a imagem aí de cima pesquisando no Google. E ela define perfeitamente um pouco do que eu sou e da proposta do blog: tem de tudo um pouco, e um pouco de quase tudo o que gosto. Aqui você vai encontrar sempre um papo sobre música, cinema, comunicação, literatura, jornalismo, meio ambiente, tecnologia e qualquer outra coisa capaz de me despertar algo e a vontade de compartilhar com vocês. Entrem e divirtam-se!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Os bastidores de uma itinerância

Coluna - Diário de Bordo

A itinerância para fazer um vídeo na Resex Verde Para Sempre que virou naufrágio, experiência de vida e história para contar.

Fotos: Yorranna Oliveira, Renata Baía, Talmir Neto

Afundamos na madrugada de terça-feira, 19, por volta das 5 da manhã. Acordamos com o grito de aviso de um dos tripulantes: ‘vão para o outro lado barco, que tá entrando água no barco’. Eu pulo da rede com o barco Miritituba completamente virado para a direita. A água do rio Uiuí o invadiu numa velocidade de segundos. Acordamos com águas varrendo tudo. O barulho do freezer rangendo o chão ao mesmo tempo que o grito de Elson, nosso salvador, rasgava o silêncio da noite.

Meus pés sentem a água gelada. Me seguro na rede para tentar subir para o outro lado. Escorrego. Temo que o barco vire de uma vez sem que eu consiga chegar ao outro ponto da embarcação, que eu bata a cabeça na virada, me afogue e morra. Mas ao mesmo tempo eu tenho certeza que não vou morrer. Peço ajuda para outra integrante da equipe que já tinha conseguido se atracar na parte segura do Miritituba. Ela pega minha mão e me ajuda a subir. Me sinto segura de novo. Peço a proteção divina, o coração ainda bate acelerado. Ajudamos Maria do Céu a também subir. E outra integrante fala de algum ponto do barco que não sabe nadar. Os meninos vão ajudá-la. Mais tarde sabemos que ela não tinha entendido o aviso e já acordara com a água dentro da rede. Não conseguiu subir. Dois a seguram pelos braços. E um terceiro, Árniton, a empurra com um dos pés.

Miritituba nas águas do rio Uiuí

Jair chama pelo nome dos integrantes da equipe. Pergunta se todos estão bem. Ouvimos o barulho de um motor de barco. É seu Icles vindo de sua casa ajudar. Embarcamos no pequeno barco. Vejo minha toalha pendurada. Peço para um dos rapazes do Mirituba pegarem pra mim. Minutos depois chegam dois repelentes, os carapanãs iam começar a fazer festa. Do Céu, Renata e eu tomamos quase um banho com cada um deles. Abro minha bolsa ensopada que, num dos mergulhos, Árniton recuperou. Notas fiscais, bloquinhos de anotações, celular, máquina digital, agenda de contatos. Tudo molhado. Outra bolsa é achada no meio da água, a minha, onde estava o dinheiro da viagem. Como era de se esperar, também molhada. O notebook também vem na leva. Outras malas e equipamentos vão sendo encontrados e colocados no barco de seu Ícles e na voadeira que vinha a reboque no Miritituba.

Pergunto a seu Icles se há muito jacaré e piranha por aquelas águas. Ele diz que sim e como. Ou seja, poderíamos não morrer afogados, mas comidos por jacarés ou piranhas seria bem provável. Seu Ícles nos leva para a casa dele, a poucos metros dali. Pergunto se ele já tinha visto algum acidente do tipo. Diz que nos 20 anos que mora por ali nunca tinha presenciado.

O popopô do resgate


Seu Icles viu quando nosso barco passava pelo rio que corta a Comunidade Andrade e Silva, localizada na Resex Verde Para Sempre, a cerca de 50 minutos de Cuireiras, a primeira comunidade de nossa jornada pela Resex. É tempo de seca nos rios da Reserva e o Uiuí é estreito, poderíamos ter encalhado em algum ponto do trajeto. De sua casa, seu Icles vê o barco tombando e chama um primo que mora e trabalha no lugar para prestar socorro.

Missão 2: Salvar o que restou


Olha aí o Árniton consertando o carregador de baterias da câmera. Campeão de mergulhos no barco para recuperar bagagens, equipamentos e comida


O sol aparece no horizonte no Retiro Andrade Silva, na Comunidade Monte Sinai. A mulher de seu Icles, Ângela, nos oferece café, conversa conosco e vamos compartilhando vivências, conhecendo aquele novo mundo que não estava previsto na itinerância. Os rapazes trazem mais bagagens e materiais para o trapiche da casa de nossos acolhedores. Saem de voadeira pelo rio atrás do que foi embora com a correnteza.

Indo atrás do prejuízo...Perdemos tripé, microfone, comida, roupas. Mas recuperamos outras tantas.

O sol vai ficando forte e começamos a colocar tudo para secar, na tentativa de recuperar o máximo possível de material. Perdemos o tripé da câmera, que ficou intacta graças ao case impermeável. Foi a primeira coisa que Árniton saiu atrás, depois de constatar que não morreríamos e o barco não afundaria mais do que afundou. Nos reunimos para decidir se iríamos continuar ou se abortaríamos a missão. Decidimos seguir até Cuieiras para gravar as imagens do vídeo sobre a Reserva Extrativista (Resex) Verde Para Sempre, como previsto no roteiro. A última comunidade, Itapeua, foi tirada do nosso itinerário. As condições de navegação por ela eram as mesmas da de Cuieiras, preferimos não arriscar.

O comandante que foi ao banheiro


Todos queriam falar com parentes, amigos, chefes. Mas celular não pega nas comunidades próximas e nem telefone público, como veríamos na comunidade de Carmelino, via satélite há. A única forma de comunicação é o rádio. A da casa de seu Ícles estava sem bateria. Do barco, Louro, o piloto do Miritituba no momento do acidente, tentava entrar em contato com o dono da embarcação que mora em Porto de Moz.

Louro, o piloto do naufrágio, tentando falar com o povo de Porto de Moz.


Aos poucos vamos entendendo o que aconteceu. A seca do rio Uiuí, a maior já vivida pelos ribeirinhos nos últimos anos, foi nossa faca de dois gumes. Tivemos sorte de não encalhar e afundar antes. O barco passou em cima de um tronco, que furou o porão (podre segundo os mergulhadores) do Miritituba. Elson, o piloto da voadeira que nos conduziria pelos rios mais estreitos e rasos, dormia na parte de baixo do barco viu a água entrando no barco e correu para nos avisar.

Foi este rapaz quem avisou que deveríamos sair de nossas redes.


O capitão do barco estava no banheiro no momento do acidente. Louro passou por cima do tronco, o barco balançou fortemente, tinha acordado poucos segundos antes. Estava com vontade fazer xixi, mas fiquei com preguiça de levantar. Senti o balançar da rede que quase me faz cair. O barco volta e segue de novo. O freezer escorrega, Elson grita e o resto todo mundo já sabe. Se o acidente tivesse acontecido no Rio Xingu ou no Amazonas, dificilmente eu estaria compartilhando esssa história. Possivelmente teria virado manchete de jornal.

Depois do almoço vamos para Cuieiras. Árniton faz imagens do rio, dos pássaros, dos peixes, dos búfalos caminhado por terra e água. A criação de búfalos garante o sustento das famílias da Zona de Várzea da Resex, associada a pesca artesanal e a produção de farinha de peixe. A paisagem favorece belas imagens captadas pela câmera Full HD que levamos (high difintion total). O rio Uiuí é farto em acaris que brincam de pira nas águas. A água fica pipocando de tanto peixe que tem. Não é à toa que o povo de lá faz farinha com o acari, a chamada farinha de piracuí. Na região o queijo de búfala é vendido na porta das casas para os passantes. Ele passa por um processo de fritura, além de outros detalhes que conto depois. O resultado garante um queijo de comer de joelhos de tão bom. Aprovadíssimo.

Trepando na cerca em busca do melhor ângulo


Terra de búfalos...




A quinze minutos de Cuieiras, encalhamos. Resolvemos voltar no dia seguinte com a maré enchendo para não correr riscos de novos encalhes. Mais imagens no caminho. Muitos búfalos. Entrevistamos um vaqueiro. Novas imagens. Árniton pira nas imagens. E mais búfalos ao longo do caminho, novas pirações.

Iríamos embora no final da tarde da casa de seu Ícles. Mas novos contratempos nos fazem ficar e só ir embora na tarde do dia seguinte. Um novo barco de Almeirim, o Sarraf Junior, nos pegaria ali perto na viia Aquiaqui, às margens do rio Aquiaqui, onde botos aparecem de minuto a minuto e pulam feito criança para deleite de nosso olhos. O Sarraf Junior nos acompanharia até o fim da itinerância por mais duas comunidades (Carmelino e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, mais conhecida como Arimum) da Resex.

O casal de salvadores, os primos Icles Andrade da Silva e Ângela Andrade da Silva. Quinze anos de casamento, dois filhos, o Gustavo, de 3 anos e Daniel, de 8 meses.


Providencial sofrermos o acidente perto da casa de seu Icles. Tivemos onde comer, descansar, organizar as ideias, dormir. Tivemos acolhida e proteção do temporal que caiu na noite de terça-feira. O céu queria desabar naquela noite. Muita água, relâmpagos e trovões caíram do alto. Dormimos todos amontoados na sala. Uns pelo chão, outros pelo sofá. Pelos donos da casa dormiríamos no quarto quentinho deles, preparado para nos receber. No entanto, ficamos com vergonha de aceitar. Já estávamos abusando demais da gentileza do casal e, de certa forma, atrapalhando a rotina deles.

Um comentário:

Adison César Ferreira disse...

Depois desse batismo, tenho certeza que não faltará mais grandes histórias para o teu arquivo jornalistico.